Em março de 2025, dois movimentos distintos marcaram o comportamento financeiro dos brasileiros. De um lado, a incerteza sobre o ciclo de alta dos juros nos Estados Unidos e as decisões do Comitê de Política Monetária do Banco Central mantinham o mercado de ações e o câmbio sob pressão.
De outro, o lançamento da mainnet aberta da Pi Network atraía atenção de milhões de usuários que acompanham o projeto desde 2019, quando a proposta de minerar criptomoeda pelo celular ainda parecia improvável.
Os dois movimentos falam de um mesmo fenômeno: o investidor brasileiro está buscando referências em terrenos diferentes ao mesmo tempo, e nem sempre com clareza sobre o que cada um representa.
Segundo o 8° Raio X do Investidor Brasileiro, publicado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais em parceria com o Datafolha, cerca de 59 milhões de brasileiros investem em algum produto financeiro.
A poupança permanece na liderança, mas as criptomoedas já ocupam a quinta posição entre os produtos mais escolhidos, com 4,1% da população investindo em ativos digitais, índice superior ao das ações, que atingiu 2,8%.
O que o mercado tradicional tem dito
Para quem acompanha o Ibovespa e o comportamento do dólar, 2025 começou com dúvidas sobre o ritmo das decisões do Federal Reserve americano e do Copom.
O Federal Reserve manteve os juros americanos estacionados por mais tempo do que o mercado esperava, o que pressiona países emergentes, incluindo o Brasil, a manterem seus próprios juros elevados para conter a saída de capital.
O efeito sobre o câmbio é direto: um dólar pressionado para cima encarece importações, alimenta a inflação e obriga o Banco Central brasileiro a calibrar com cuidado qualquer sinal de afrouxamento monetário.
Para o investidor pessoa física, isso significa que a renda variável enfrenta ventos contrários, mas os ativos de renda fixa remuneram bem. O CDI acumulado em 2025 até meados de dezembro superou 13%, o que colocou muitos fundos de ações abaixo do índice de referência.
Esse quadro não significa fuga da bolsa, mas exige mais seletividade. Setores como construção civil e educação, que sofreram nos anos anteriores, registraram recuperações expressivas em 2025. Quem comprou os papéis certos viu retornos acima de 100%. Quem ficou apenas no índice geral, menos.
O perfil de quem está investindo em criptomoedas no Brasil
O investidor brasileiro de criptomoedas tem, em média, 29,7 anos. Pertence predominantemente à geração Z (nascidos entre 1995 e 2010), que responde por 57,2% desse grupo. A maioria ganha entre três e cinco salários mínimos e pertence às classes B e C, o que contraria a ideia de que o mercado cripto é restrito a pessoas de alta renda.
O objetivo mais citado por esse perfil de investidor não é enriquecer rapidamente: 28,3% querem comprar um imóvel próprio. Guardar dinheiro para segurança financeira aparece em segundo lugar, com 18,9%. Trata-se de um perfil organizado, economicamente ativo (88,5% têm renda) e disposto a buscar alternativas fora do sistema financeiro convencional.
O que muda, nos últimos anos, é o tipo de cripto que esse público acompanha. Bitcoin e Ethereum ainda dominam, mas projetos com proposta de acesso mais amplo têm ganhado espaço, especialmente entre quem ainda não tem familiaridade com exchanges ou carteiras digitais.
A proposta da Pi Network e o que a mineração móvel representa
A Pi Network foi criada em 2019 pelos pesquisadores Nicolas Kokkalis e Chengdiao Fan, ambos doutores em Ciência da Computação pela Universidade de Stanford. A proposta era direta: permitir que qualquer pessoa com um smartphone pudesse participar de uma rede cripto sem precisar de hardware caro, consumo elevado de energia ou conhecimento técnico avançado.
No modelo tradicional de mineração de Bitcoin, o processo exige equipamentos específicos que consomem grandes quantidades de energia elétrica. A Pi Network adotou um mecanismo diferente, baseado no Protocolo de Consenso Stellar, que usa círculos de confiança entre usuários para validar transações, em vez de competição computacional. O resultado em termos de adoção foi expressivo: a rede chegou a mais de 60 milhões de usuários registrados globalmente.
Em fevereiro de 2025, a mainnet aberta foi lançada, permitindo que os tokens Pi fossem listados em corretoras e negociados externamente pela primeira vez. Em março de 2026, o protocolo avançou para o Protocolo 20, habilitando contratos inteligentes, aplicações descentralizadas (dApps) e NFTs, o que marca uma transição do projeto de uma plataforma de mineração para um ambiente Web3 funcional.
Há pontos de atenção que os interessados precisam conhecer. O cronograma do projeto foi adiado diversas vezes ao longo dos anos. O processo de verificação de identidade (KYC) é obrigatório para que os usuários migrem seus tokens para a blockchain principal. A transparência sobre os mecanismos internos de mineração ainda é questionada por analistas. Não se trata de um investimento sem risco, especialmente para quem coloca expectativas financeiras no curto prazo.
O que a Pi Network representa, do ponto de vista mais amplo, é uma tentativa de democratizar o acesso aos ativos digitais. O modelo de mineração pelo celular pode não revolucionar o mercado cripto da mesma forma que o Bitcoin o fez, mas trouxe para a discussão sobre finanças digitais uma parcela enorme da população que antes estava completamente de fora.
| Leia também: Pi Network e a Nova Era da Mineração Móvel: O Caminho Alternativo para a Descentralização |
Como esses dois mundos se conectam para o investidor comum
A pergunta que muitos fazem é se o mercado de renda variável tradicional e o dos ativos digitais são opostos ou complementares. A resposta prática é que não são opostos. O investidor que acompanha o Ibovespa, o dólar e as decisões do Copom está olhando para variáveis macroeconômicas que afetam toda a carteira, incluindo ativos cripto. Uma alta do dólar, por exemplo, pode valorizar bitcoins cotados em reais mesmo que o preço em dólar não mude.
O que diferencia quem sai bem de quem sai mal nesses dois mercados não é a escolha entre bolsa ou cripto. É o entendimento do que cada ativo representa, qual é o horizonte de tempo para o investimento e quanto do patrimônio total faz sentido alocar em cada classe.
A ANBIMA identificou que os investidores de criptomoedas no Brasil têm uma taxa de poupança maior do que a média geral: 66,6% deles conseguem guardar dinheiro regularmente. Isso sugere que o interesse em cripto não vem de impulsividade, mas de uma disposição real para construir patrimônio por outros caminhos.
O que observar nos próximos meses
Dois pontos merecem atenção de quem está acompanhando o mercado financeiro brasileiro neste primeiro semestre de 2026. O primeiro é a sequência de decisões do Copom sobre a Selic. Se o ciclo de alta dos juros americanos parar, o Banco Central brasileiro terá mais espaço para sinalizar cortes, o que tende a favorecer a renda variável e aquecer o apetite por risco.
O segundo ponto é o desenvolvimento dos ativos digitais no país. Em março de 2025, a ANBIMA incorporou conhecimentos sobre criptomoedas, DeFi e NFTs nos exames de certificação de profissionais do mercado financeiro. O movimento sinaliza que esses ativos saíram do terreno especulativo e passaram a ser tratados como classe legítima pelo regulador.
Não há garantias em nenhum dos dois lados. Mas o investidor que entende o que está movendo os preços, tanto no pregão quanto nas exchanges, tem uma vantagem real sobre quem age apenas por reação.
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