O Guangzhou FC, fundado em 1954 na cidade chinesa de mesmo nome, viveu uma trajetória que vai do auge ao desaparecimento. Conhecido como “Tigres do Sul da China”, o clube era uma representação do governo local, uma prática comum no futebol do país.
O time só se tornou profissional em 1993. Durante boa parte de sua história, alternou entre a primeira e a segunda divisão nacional, sem grande destaque na cidade que era um importante polo financeiro.
A situação piorou em fevereiro de 2010. O Guangzhou foi rebaixado para a segunda divisão como punição por um esquema de manipulação de resultados. A investigação do Ministério de Segurança Pública da China identificou subornos feitos por funcionários do clube para vencer partidas em 2006.
A operação também atingiu outros times, prendeu ex-vice-presidentes da Associação Chinesa de Futebol, um árbitro Fifa e jogadores da seleção nacional. Com dirigentes presos, o clube passou por uma reformulação e foi colocado à venda. Foi quando entrou em cena a empresa Evergrande.
Em 2010, o Guangzhou foi comprado por 100 milhões de yuans e passou a se chamar Guangzhou Evergrande. A nova dona era uma gigante do setor imobiliário que tinha origem na mesma cidade do time.
A compra foi idealizada por Xu Jiayin, fundador da Evergrande. Sob seu comando, a empresa acumulou 150 bilhões de dólares em ativos, aproveitando o crescimento urbano da China. Jiayin chegou a ser o homem mais rico do país em 2017.
Com o novo investidor, o potencial financeiro do clube se tornou sua principal arma. A proposta era desenvolver o futebol chinês para atingir um nível internacional. A reformulação começou ainda na segunda divisão, com contratações de peso.
Na janela de meio de 2010, o time contratou estrelas do futebol chinês da época e também o brasileiro Muriqui, ex-Atlético-MG e Vasco. O jogador admitiu ter hesitado no início, mas aceitou ao conhecer o projeto de investimentos.
No final daquele ano, o Guangzhou conquistou o título da segunda divisão e retornou à elite. Os anos seguintes foram marcados por mais conquistas e contratações de alto perfil, especialmente de jogadores com passagem pelo Brasil.
Passaram pelo clube nomes como Conca, Lucas Barrios, Paulinho, Elkeson, Alan, Aloísio, Talisca e Ricardo Goulart. Muitos foram atraídos em momentos importantes de suas carreiras. Barrios, por exemplo, chegou após vencer títulos na Alemanha pelo Borussia Dortmund.
O clube também investiu em treinadores renomados. Foram contratados os campeões mundiais Luiz Felipe Scolari, Marcello Lippi e Fabio Cannavaro. Felipão, inclusive, se tornou o técnico mais vencedor da história do time.
Os resultados em campo apareceram. O Guangzhou venceu o Campeonato Chinês oito vezes, a Champions League da Ásia em duas oportunidades, a Copa da China também duas vezes e a Supercopa em quatro ocasiões.
Em 2020, foi anunciado um projeto ambicioso: a construção de um estádio para 100 mil pessoas, com formato de flor de lótus. A arena, orçada em cerca de 12 bilhões de yuans, tinha previsão de inauguração para 2022.
Por trás do sucesso, no entanto, havia um problema. O crescimento exponencial da Evergrande entre 2004 e 2020 foi financiado por uma série de empréstimos. Com o tempo, os juros dessas dívidas se tornaram insustentáveis para a empresa.
A crise na Evergrande afetou diretamente o clube. Em entrevista, o técnico Luiz Felipe Scolari falou sobre o impacto. “Quando a crise aconteceu na Evergrande, o clube foi muito impactado. Foi uma queda muito grande. Afetou muito os jogadores”, disse.
Felipão também relembrou a época positiva. “Fico bastante triste, mas foi uma época muito bem vivida. Eu mantenho essa alegria de dizer que foi um dos melhores lugares que eu vivi. Era incrível. A amizade que a gente fez lá, o carinho do povo era espetacular”, completou.
Sem o apoio financeiro da empresa matriz, o Guangzhou Evergrande entrou em colapso. O clube que foi heptacampeão consecutivo e dominou o futebol chinês na década de 2010 acabou fechando as portas. A queda marca o fim de uma era de grandes investimentos e conquistas no futebol da China.
