No dia 19 de abril é celebrado o Dia dos Povos Indígenas, data que destaca a luta e a resistência dos povos originários do país. O empreendedorismo aparece como uma forma de apoiar as comunidades na busca por mais autonomia, valorização e preservação de suas tradições.
Um exemplo vem do povo Ofaié, que vive a 12 quilômetros de Brasilândia, no Mato Grosso do Sul. Com apenas 32 famílias, eles formam a menor comunidade indígena do estado. Com apoio do Sebrae, as mulheres artesãs da aldeia têm resgatado sua cultura por meio do artesanato.
Há dois anos, elas participaram do primeiro Empretec Rural Indígena. Desde então, conseguiram ampliar a visibilidade da cultura Ofaié. As peças produzidas trazem referências à fauna, à flora e à língua materna da região.
Ramona Pereira, cacique da aldeia, diz que o maior sonho do grupo é que mais pessoas conheçam sua cultura e valorizem seu trabalho. Após a experiência no Empretec, as mulheres também passaram a empreender na área de alimentos, produzindo pães enriquecidos e bolos.
Diferenciais no mercado
Georgia Nunes, gerente de Empreendedorismo Feminino do Sebrae Nacional, afirma que os empreendedores indígenas têm características com potencial competitivo. Ela cita a conexão com saberes ancestrais, o repertório cultural e uma visão de mundo ligada à sustentabilidade.
Segundo ela, a inserção no mercado deve fortalecer essas identidades diversas, e não forçar a adaptação a modelos padronizados. Isso amplia oportunidades em diferentes cadeias e reconhece a pluralidade como uma força para a economia.
Turismo de imersão
No sul da Bahia, na Costa do Descobrimento, mais de 20 aldeias da etnia Pataxó são atendidas há mais de 30 anos pelo Sebrae local. Os projetos começaram com foco no artesanato na Reserva da Jaqueira e depois evoluíram para a criação de um produto de turismo de imersão cultural.
Flávia Goroni, analista do Sebrae Bahia, ressalta que o turista consciente valoriza muito a etnovivência, que é uma experiência cultural profunda e autêntica.
A Reserva Porto do Boi, em Porto Seguro, recebeu atendimento da instituição entre 2022 e 2023. Com base no conceito de Destinos Turísticos Inteligentes, a visitação foi remodelada, com a implantação de práticas ambientais e o desenvolvimento de uma identidade visual.
Durante missões empresariais em Bonito (MS), a líder indígena Tapy Pataxó se inspirou para criar uma grande oca para realizar o Ritual da Lua Cheia, uma vivência mensal para visitantes. Ela afirma que o Sebrae apoiou a comunidade a conhecer outras experiências e a valorizar cada vez mais sua própria cultura.
A reserva recebe visitantes de segunda a sábado, apenas no período da manhã, com limite de pessoas. Em 2023, foram quase 19 mil visitações. Na alta temporada, até 80 pessoas por dia participam de atividades como pintura corporal, cantos, danças e contato com a história do povo.
Foco no empreendedorismo feminino
No Mato Grosso, o Sebrae atua na região do Araguaia com incentivo ao empreendedorismo feminino. A Aldeia Urubu Branco, em Confresa, é pioneira em uma ação voltada para mulheres, o projeto Força Mulher Indígenas.
Cerca de 20 a 25 mulheres foram diretamente beneficiadas. O projeto promoveu capacitação técnica e fortaleceu a valorização coletiva do trabalho, vendo o artesanato como fonte de renda e expressão cultural.
A ação começou com uma escuta qualificada das mulheres da aldeia, garantindo o respeito à realidade local. Depois, foram realizadas oficinas de acabamento, higiene e organização da produção.
A artesã Ellen Awokoaxowa defende que toda ação deve respeitar e valorizar a cultura e os saberes tradicionais. Para ela, fortalecer as mulheres indígenas é importante para promover a autonomia e o desenvolvimento sustentável nas comunidades.
Para Patrícia Dantas, analista do Sebrae MT e gestora do projeto, a iniciativa vai além do aspecto econômico. Ela fortalece o protagonismo das mulheres, respeita suas tradições e revela ao mercado o valor cultural de cada peça produzida.
O Sebrae no estado também atua em Campo Novo do Parecis com foco no etnoturismo e no desenvolvimento da agricultura, gastronomia e artesanato. Em 2023, a instituição recebeu o Prêmio Nacional do Turismo do Ministério do Turismo pela aplicação de metodologia voltada ao etnoturismo em comunidades indígenas.

