O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) realizou uma expedição no Alto Solimões, no Amazonas, para conhecer o empreendedorismo indígena. A ação focou no trabalho do povo Ticuna no município de Benjamin Constant.
O município de Benjamin Constant fica a 1.116 km de Manaus, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. De acordo com dados do Idam, a região tem 66 comunidades rurais e mais de 48 mil habitantes. Cerca de 90% dessas comunidades têm no artesanato a principal fonte de renda.
A visita do Sebrae contou com apoio da prefeitura local e integra os projetos Brasilidades e Cidade Empreendedora. A iniciativa busca fortalecer setores econômicos locais, com destaque para o artesanato.
Na comunidade Bom Caminho, a equipe conheceu o trabalho da Associação das Mulheres Artesãs Ticunas (AMATU). Cerca de 200 mulheres formalizadas transformam saberes ancestrais em produtos para o mercado, ao lado de outros artesãos locais.
O processo produtivo começa com a extração de matéria-prima, como a fibra de arumã. A coleta exige longas jornadas na mata, enfrentando distâncias, peso do material e variações do clima. Nem tudo que é coletado pode ser aproveitado.
Há uma preocupação com a reposição da matéria-prima, mostrando uma relação direta entre produção e preservação. O manejo sustentável revela um conhecimento tradicional que atravessa gerações.
Quando alguém adquire um produto desses, não está comprando apenas artesanato, disse Lilian Sílvia Simões, gestora do Projeto de Artesanato do Sebrae Amazonas. Está contribuindo com a preservação da floresta e com a continuidade de um modelo de vida.
O Sebrae no Amazonas trabalha há mais de uma década com o povo Ticuna. A atuação inclui capacitação, gestão, inovação e acesso a mercado. Benjamin Constant foi identificado como polo de artesanato a partir de mapeamentos feitos durante o ciclo da Copa do Mundo de 2014.
Hoje, os artesãos estão cadastrados no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab). Eles participam de feiras nacionais e já exportaram peças para países como Itália e Inglaterra. O próximo passo é buscar o reconhecimento por Indicação Geográfica (IG), um selo do INPI.
Para o gerente nacional de Comunicação do Sebrae, Felipe Damo, a experiência mostra uma riqueza pouco visibilizada. A impressão que a gente tem é de que o Brasil é uma fonte inesgotável de criatividade, destacou. Ele afirmou que a iniciativa é parte de um mergulho profundo na brasilidade que o Sebrae está fazendo.
Rosa Chota Davilla, presidente da AMATU, reconhecida entre as melhores artesãs do país no Prêmio Top 100, falou sobre o apoio. O Sebrae é muito importante para nós. A gente se sente acolhida e assistida, disse ela. Esse incentivo é importante para que a gente continue, melhore o nosso negócio e fortaleça o artesanato.
O artesanato na região é a base econômica para centenas de famílias. A produção envolve organização coletiva e divisão de tarefas, estruturando-se para atender demandas de mercado. O trabalho contínuo inclui desde a formalização dos artesãos até a preparação para acessar novos mercados.
O município se prepara para dar um novo passo. No dia 22 de abril, artesãos de diferentes comunidades participarão da rodada de negócios “Encontro para tecer negócios”. O objetivo é aproximar produtores de compradores e investidores, transformando visibilidade em geração de renda.
A atividade artesanal no Alto Solimões demonstra um modelo de negócio que conecta tradição, floresta e mercado. A cadeia produtiva movimenta a economia local e preserva modos de vida, mostrando o protagonismo das comunidades indígenas no empreendedorismo da região.

