Em um cenário onde a inteligência artificial impacta o mercado de trabalho, algumas atividades manuais especializadas seguem valorizadas. Restauração de obras de arte, luteria (construção e manutenção de instrumentos musicais) e produção de cerâmicas personalizadas são exemplos. Esses ofícios lidam com questões que a tecnologia ainda não alcança, como tempo, materialidade e o inesperado.
Denise Marques, analista de Economia Criativa do Sebrae, afirma que a IA automatiza processos, mas não gera autenticidade, criatividade e trabalho manual especializado. Para ela, a experiência, a sensibilidade artística e a identidade cultural tornam esses profissionais mais raros e valorizados no mercado.
Mauro Bandeira é restaurador de obras de arte há 25 anos. Ele acredita que o ofício tem especificidades insubstituíveis pelo digital, como lidar com materiais e decisões éticas. “Restaurar é recuperar mantendo ao máximo o componente original. Tudo precisa ser traduzido pelo sentido do tato para a tomada de decisões”, explica.
‘Imperfeições’ que agregam valor
Débora Mello fundou o ateliê de cerâmica Favo de Colorir há seis anos, na Tijuca, Rio de Janeiro. Ela destaca a importância da materialidade do trabalho e as surpresas que surgem. “Você precisa sentir a umidade da argila, a espessura da peça. É um processo de experimentação, repetição e aceitação das imperfeições”.
Giorgio Benedettini é luthier há 30 anos e fundou a 2Luthiers, também na Tijuca. Para ele, a imperfeição está contida nas coisas feitas manualmente e traz humanidade para o trabalho. O produto artesanal se torna exclusivo e mais valorizado. “O que faz a pessoa pagar mais por um instrumento customizado é a exclusividade, a possibilidade de ter um instrumento feito do jeito que você quer”, afirma.
Demonstrar o processo pode atrair público
Débora acredita que há uma valorização crescente do trabalho manual. “As pessoas querem objetos que tenham personalidade e que não sejam iguais a milhares de outros”, diz. Ela compartilha o processo do trabalho nas redes sociais para criar uma conexão com o público.
Giorgio compara cada peça a “filhos únicos, cada um tem um CPF”. Para ele, o grande atrativo do trabalho é o processo de construção. “Quando você termina um instrumento, pensa: ‘E agora?’. Aí a gente vai para o próximo, tentando fazer melhor do que o anterior. É uma evolução constante”.
Apoio à economia criativa
O Sebrae oferece iniciativas para fortalecer empreendedores criativos em segmentos como artesanato, música, moda e gastronomia. O portal da instituição disponibiliza conteúdos sobre tendências de mercado e cursos online gratuitos sobre economia criativa e inovação.
Denise Marques explica que o objetivo é transformar talento e criatividade em negócios sustentáveis. O trabalho inclui capacitações em gestão, consultorias, acesso a mercados, participação em feiras e incentivo à inovação e à transformação digital.
